quinta-feira, 8 de fevereiro de 2007



Em África


(De Castro Alves a Hannah Arendt)



Aqui ficam registrados alguns dos momentos vivenciados em Angola. As sensações, aprendizado e, principalmente, a vivência com o povo e o que apreendo desse convívio. Porei sempre o olhar aguçado do repórter sobre o que vejo, para melhor compreender esse país e transmitir aos visitantes desse blog as minhas impressões.


Utilizarei nas narrativas informações sobre sua história, cultura, economia, política, meio ambiente, etc. E enfocarei sempre que possível os reflexos da atividade humana sobre esses aspectos e a influência desses no comportamento social. Confiando neste meu olhar e numa muito genérica e decantada "cultura de almanaque". Mas prometo que procurarei não abusar muito da paciência de vocês.


Recorro sempre à poesia romântica e ao mesmo tempo libertária do maior poeta brasileiro para ter uma dimensão do que foi o maior movimento organizado de deportação da história: a escravidão seguida da diáspora, que determinaram a sorte deste continente. Com seu espírito condoreiro, como que sobrevoando os mares, o poeta baiano avista do alto um navio a conduzir escravos. De sua lira extrai um dos mais candentes poemas da língua portuguêsa.




Eis um trecho :

Senhor Deus dos desgraçados
Dizei-me vós, Senhor Deus!
Se é loucura... se é verdade
Tanto horror perante os céus?!
Ó mar, por que não apagas
Com a esponja de tuas vagas
De teu manto este borrão?...
Astros! noites! tempestades!

Rolai das imensidades!
Varrei os mares, tufão!


(In Navio Negreiro)


Castro Alves (1847-1871) declamando

Mas quem se detiver à procura de conhecimentos menos poéticos e mais filosóficos, enfim mais complexos, que expliquem o sub-desenvolvimento crônico do continente mais pobre do planeta sugiro que não deixe de pousar os olhos e a mente na obra de Hannah Arendt, filósofa (embora ela preferisse se intitular apenas uma teórica) judia alemã, perseguida pelo nazismo.

Hannah Arendt (1906-1975)



Após cobrir como jornalista o julgamento do carrasco Adolf Eichmann, em Israel (1961), ela analisou todos os demais crimes do nazismo. Achou-o com aparência de um homem normal, que "cumpria ordens", embora tivessse cometido atrocidades, e apontou para a complexidade da natureza humana alertando para o que chamou de uma certa banalidade do mal, "que surge quando somos condescendentes com o sofrimento, a tortura e a própria prática do mal". Daí conclui que é fundamental guardar uma permanente vigilância para garantir a defesa dos direitos humanos e a preservação da liberdade. Dela, extraio esse aforismo que cabe perfeitamente em qualquer análise sobre a África e, logicamente, outras regiões:


"O sub-desenvolvimento não é apenas uma realidade , mas sim uma ideologia !"

Até porque não sendo um fenômeno, alguém tem culpa pela sua existência. A África é o que fizeram dela, ao longo da história, inclusive suas próprias "elites". A sua partilha entre as potências mundiais, o saque de suas riquezas, a degradação, escravização de sua gente e a colonização "coincidem" justamente com a fase inicial da formação do capitalismo e lhe foram determinantes.


Compartilhem comigo do meu olhar sobre Angola, meus kambas (camaradas, parceiros em kimbundu, uma das línguas nativas). Afinal, para quem está deslocado de seus habituais portos de abrigo, nada melhor do que uma companhia solidária com quem possa dividir as impressões sobre o que o olhar capta em outras terras e outras gentes.
Deixem registradas, por favor, as sugestões, comentários, críticas (principalmente), dúvidas e o que mais lhes convier a respeito desse blog e de Angola. Na medida do possível, responderei a todos.



Jorginho Ramos

09 fevereiro 2007



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Visita ao Miradouro da Lua



No primeiro domingo do ano alguns brasileiros (muitos são baianos) com quem convivo em Angola me convidaram para voltar a Cabo Ledo, a magnífica enseada ao Sul de Luanda, já na Província do Bengo. No caminho demos uma paradinha para apreciar o "Miradouro da Lua". Trata-se de um conjunto de falésias em que a ação dos ventos e das chuvas esculpiu estranhas formas. De fato, o aspecto é semelhante ao de uma paisagem lunar.



É mesmo uma paisagem estupenda!









9 comentários:

Marcelo disse...

jorgito!!Muito bom seu Blog!

Nilson disse...

Jorginho, parabéns! Vou botar nos favoritos e acompanhar suas aventuras. Um abraço.

Fabio Costa disse...

Caraca, ficou muito legal... vou visitar todos os dias em busca de novidades...

Anônimo disse...

Cristiane Lobo disse

Compadre, ficou ótimo, você virou internauta de vez hem?
Visitarei sempre para aprender com esse jornalista, poeta, romântico...., que sabe dizer falar das coisas com sentimentos.
Adorei! Beijos

12 de fevereiro de 2007 15:51

Gabriel Freire disse...

Jorginho, agora ficou muito melhor e mais fácil acompanhar suas aventuras angolanas. Um abraço!!!!

Shirley Pinheiro disse...

Jorginho: a-d-o-r-e-i seu blog. Boa sorte em suas aventuras por aí para que nosbrinde com boas leituras por aqui. Beijinhos, Shirley Pinheiro

Laurinha disse...

Jorginho!!Suas aventuras me levam a sonhar com uma Africa diferente daquela que eu imaginava!Muito bom me deliciar com suas histórias!
Bjuss!!!

david santos disse...

Este trabalho é todo muito bom. Parabéns.
Os teus amigos Marcelo e Nilson, que abram os blogs deles aos comentários, pois só assim se pode alastrar, ou dar a conhecer os trabalhos de cada um deles. Quanto a ti, deixa um conment no meu blog e logo começas a ter mais visitantes. Abraços.

Jorginho Ramos disse...

Obrigado, amigos. A idéia foi justamente essa: dividir com vocês emoções e impressões.
Jorginho